A resposta mais curta e simples que já consegui dar quando me perguntaram porque escrevo romances foi: porque não sei cantar, nem tocar um instrumento ou compor uma sonata. Não estarei faltando com respeito à literatura se disser, caso um extra-terrestre apareça de repente na minha frente querendo conhecer um pouco da essência do povo da Terra através de sua arte, que o meu primeiro pensamento seria Bach ao invés de Tolstoi. A obra escrita, mesmo as grandes, trata inevitavelmente, até um certo ponto, de uma preocupação local, coisa que a música de uma certa forma não faz. Nossos romances talvez não sejam lidos em Alfa Centauro, mas parece possível que algumas de nossas músicas sejam tocadas. Apaixonado pela múica mas sem talento algum para produzi-la, eu tento compensar escutando música quase toda manhã antes de começar a escrever, para ficar me lembrando sempre de que a linguagem escrita em papel pode ser quase tão rítmica e penetrante quando a obra de Schubert, Van Morrison ou Philip Glass.
A única constante desde que comecei a escrever romances – minha única manifestação ininterrupta como ouvinte fiel – tem sido a obra de Philip Glass. Eu adoro a música de Philip Glass tanto quanto adoro A Senhora Dalloway de Virginia Woolf, e por algumas das mesmas razões. Qual Woolf, Glass está mais interessado naquilo que continua do que naquilo que começa, atinge um climax e termina; ele afirma, conforme fez Woolf, que a beleza se encaixa melhor no presente do que no relacionamento do presente com o passado ou o futuro. Glass e Woolf se desprenderam do âmbito tradicional da estória, seja ela literária ou musical, em favor de algo mais mediativo, menos nitidamente delineado e mais fidedigno à vida. Para mim, Glass consegue encontrar em três notas repetidas algo do estranho arrebatamento de mesmice que Woolf descobriu numa mulher chamada Clarissa Dalloway dando conta de seus afazeres numa prosaica manhã de verão. Nós, humanos, somos criaturas que nos repetimos, e se nos recusarmos a abraçar a repetição – se empacarmos diante da arte que busca enaltecer suas texturas e ritmos, suas infindáveis variações sutis – estaremos ignorando muito do significado que damos à própria vida.
Escutei Philip Glass pela primeira vez na faculdade no início da década de setenta., quando comprei um exemplar do Einstein on the Beach depois de ouvir um trecho no rádio. Coloquei o disco para tocar tantas vezes que o meu colega de quarto ameaçou a me agredir, e acabei comprando um par de fones de ouvido. Eu tocava o disco para quem se deixasse convencer a ouvi-lo, e nisso comecei a entender que eu era uma criatura estranha que, qual a maioria das criaturas estranhas, acreditava-se normal. Muitos dos que convenci a virem ao meu quarto davam mostras de impaciência depois de dez ou quinze minutos de Einstein on the Beach, e os poucos que não davam – aqueles que o adorava tanto quanto eu – eram em geral os espécimes locais mais excêntricos, os mais malucos e solitários, com maiores tendências a obsessões. Essa experiência eu vi se repetir muitas vezes quando empurrava exemplares de A Senhora Dalloway para cima das pessoas, que em geral ficavam perturbadas com o livro quando eu, por minha vez, ficava perturbado com sua perturbação.
Os últimos trinta anos serviram para tirar Glass da margem, asim como o tempo tirou Woolf da aberração e a colocou na linha de frente da literatura mundial. Tenho lido Woolf e escutado Glass a maior parte da minha vida adulta sem jamais me cansar de qualquer um dos dois. Ainda escuto a música de Glass, normalmente assim que acordo de manhã, antes de começar a escrever. Sua música, até um certo ponto, faz parte de tudo que já escrevo. Então, quando soube que ele havia concordado em fornecer a música para a versão cinematográfica de As Horas, ficou parecendo tanto inevitável quanto bom demais para ser verdade. Não sei se conseguiria fazer elogio maior que o seguinte: quando vi o filme depois da música colocada, pensei automaticamente que eu poderia usar a trilha sonora, assim que fosse lançada, para me ajudar a concluir meu próximo livro.
- Michael Cunningham
















