
“Você não acredita que existem monstros nesse mundo? Você não acredita que as pessoas podem ser más? Pela primeira vez na minha vida eu encontro alguém que enxerga o que existe sob a minha máscara e não tenta fugir. Alguém que faz eu me sentir bem em relação ao que sou… Alguém que faz eu me sentir seguro.”
Dupla personalidade. Todo mundo tem. Mas não no sentido médico-literal da coisa. Todos escondem quem são pelo menos por parte do tempo. Não existem absolutos – pessoas totalmente boas ou más. Mas às vezes, enterramos certas partes de nós mesmos tão fundo, que precisamos ser lembrados de que elas ainda existem… Quando na verdade, só queremos esquecê-las. Vivemos em um mundo cinematográfico, onde nós somos os protagonistas e somos cercados de coadjuvantes. Para manter o ritmo de nosso roteiro, são necessárias algumas boas atuações. E é exatamente aqui que surge a nossa segunda personalidade. Ninguém pode enxergar quem eu sou de verdade. Até porque não confio totalmente em ninguém, porque qualquer um é capaz de qualquer coisa. Por mais que certas pessoas saibam inúmeras coisas a meu respeito enquanto outras não sabem absolutamente nada, existe uma certa parte que todos desconhecem. A parte que só eu conheço. Alguns podem dizer que isso é algo meio doentio, essa história de ter segredos só pra você, coisas obscuras, manias estranhas, pensamentos incontroláveis. Eu discordo. Como diz a Brenda: “O que seria da vida se não existissem segredos? Acho bobagem essa afirmação de que só existe felicidade com a verdade. Acho que todos devem ter segredos, uma coisa íntima, algo intocável. Às vezes, a verdade simplesmente não é o melhor caminho.” Não costumo compartilhar meus problemas com ninguém. Sigilo. Independência. Sempre consigo ver os problemas dos outros mais claramente que os meus.
Claro que não existem prêmios para nossas atuações, a não ser na nossa cabeça. O que resta é aproveitarmos o que podemos desses nossos momentos dignos de um Oscar. Claro que não podemos nos esquecer daquelas pobres almas que merecem é um Framboesa de Ouro. Acho que essa situação de atuações vêm da necessidade da falta de confiança que temos. Talvez seja porque sabemos como as coisas podem dar errado, como elas podem se tornar repentinamente impossíveis, intratáveis, um exercício de futilidade. Então partimos para a atuação, para a angústia, para o medo, para a agressão. Que estão sempre prontamente disponíveis. Os nossos roteiros nunca funcionam como nós queremos, isso é fato. Isso quando os roteiristas não estão de greve. Não somos roteiristas de nossas vidas, that’s all. Life is what makes things happen. O pior é quando o nosso próprio filme não corresponde ao trailer… Então, nesse mundo cheio de tramas e complicações narrativas, sermos atores é o único modo de sobrevivência. É a profissão de todos nós, e isso não é um exagero. E não estou julgando ninguém por isso, muito pelo contrário! Apóio completamente.Eu entendo que essa veia artística que nos habita pode ser um jeito de ser fiel à trama. Ou de melhorar a história. Ou de não queimar o filme que está em cartaz no momento. A cada dia nos tornamos mais especialistas nesse emprego. Alguns se conformam com essa situação, outros não. Sinceramente eu não tenho a mínima idéia de porque eu estou falando sobre isso. Assisti a um capítulo de Dexter que me motivou a pensar nesse assunto. Não fatos da minha vida. In fact, os personagens da minha trama são muito mais interessantes que o próprio roteiro da minha vida. Talvez eu precise dar uma mão ao meu roteirista, nos dias que vão se suceder.
Falando em atuação, fui ao cinema rever o ótimo desempenho da Julie Christie no filme Away From Her. Na realidade nunca fui em uma sessão tão deprimente em toda a minha vida. Primeiro que o filme é uma tristeza sem fim e segundo porque toda a geriatria de Porto Alegre estava lá. Eu me senti um completo velho, como se eu estivesse também em fim de vida. Sem falar que deu algum problema e só foram abrir a sala um minuto antes da sessão. Sala, aliás, que é a menor que já estive naquele cinema. Enfim, enfim. Em janeiro eu tinha visto o Away From Her e apreciado bastante o resultado, já que filmes de idosos sempre me comovem. Principalmente quando tem o mal de Alzheimer no meio, por motivos puramente pessoais. Só que no filme tem uma história de amor anexada à doença. A história discursa sobre isso - amor. Sobre como ele pode sobrevir através dos anos, através dos acontecimentos da vida. Sim, ele pode machucar, ele pode decepcionar, ele pode magoar. Mas ele permanece, independente de qualquer coisa, se essa for a decisão da pessoa. Pode parecer idiota, eu sei, mas por mais que essas afirmações clichês estejam presentes no filme, eu fui emocionado por elas. Os sentimentos são as únicas coisas que ninguém pode tirar da gente. Ficamos com eles lacrados em nossos corações. Não precisamos demonstrá-los ou revelá-los, porque na maioria do tempo, tê-los já é o suficiente. Hoje em dia todos gostam de espetáculos, lágrimas e grandes interpretações. Eu prefiro manter os meus sentimentos para mim mesmo. As pessoas também querem ser amadas o tempo inteiro. Quanta exigência! Elas não sabem que certas coisas são o suficiente. E eu, em alguns momentos, sei… apesar de não parecer. Eu sei me contentar com algumas coisas. “Wouldn’t be nice if we got married?”
















