
It starts with a seed of anger…
O mundo dos vilões sempre foi incrivelmente fascinante para mim. Raramente torço por pobres mocinhos inocentes. 2008 foi um ano muito pobre para esse mundo. Nem mesmo a tão comentada Flora da novela das oito conseguiu ser muito original. Tem muita gente que acha que a personagem é perfeita. Mas eu vejo alguns sérios problemas nela. A começar pela atriz que, apesar de ser excelente, simplesmente não tem as feições ideais para viver aquele ser tão maligno. Patricia Pillar se esforça, tem momentos perfeitos e é uma vilã na essência da palavra. Contudo, nunca me cativou em momento algum. Outro problema é a falta de objetivos da personagem – que muda de anseios de uma hora pra outra e a cada momento quer uma coisa diferente. Um fator importante é que ela consegue ser aquilo que uma vilã deve ser – originadora de ódios e indignações.
O que acontece é que os vilões não são mais assim hoje em dia. Ou seja, deixaram de simplesmente exercer o papel do mal e de causar asco no espectador. Até as novelas brasileiras já perceberam isso (com excessão dessa que está em andamento). Quem não se lembra da Nazaré vivida pela Renata Sorrah. Apesar de infinitos exageros absurdos e de atitudes bobas demais, a figura era um primor de humor e suas loucuras eram magnéticas. O que falar então da Laura de Claudia Abreu? Era a perfeita harmonia entre loucura, classe e maldade. Possivelmente umas das melhores figuras do mal já representada. Se as vilãs sempre têm o final em prisões e mortes, a Bia Falcão de Fernanda Montenegro se deu muito bem e teve o seu final cheia do dinheiro em frente à torre Eiffel em Paris. Figuras marcantes que nos dão saudade das antigas figuras que viamos antes. Flora, então, pode ser a mais vilã de todas. Mas não encanta nem cativa. É vazia.
Portanto, uma vigura vilanesca depende completamente da competência de quem interpreta. O caso mais impressionante que me vem à cabeça é o de Meryl Streep encarnando Miranda Priestly em O Diabo Veste Prada. Na obra literária, a vilã é rasa, pobre em detalhes e completamente inútil. E no filme ela poderia causar pura antipatia, mas Streep fez justamente o contrário. Com seu talento, impressionou a todos e roubou a cena no filme – tanto que mocinha não tinha a metade da graça dela. Miranda Priestly, então, nas mãos de Streep ficou encantadora e marcante – um verdadeiro exemplo de como se conduzir com maestria uma vilania atraente.
No setor masculino, cito Michael C. Hall e seu Dexter Morgan. Alguns podem considerar um absurdo eu classificá-lo nessa categoria. Mas, se formos analisar bem, Dexter tem sérios problemas. Claro que a vida o fez assim (assassinatos familiares na infância, uma relação um tanto conturbada com o pai e uma jornada cheia de segredos), masele é um assassino frio e calculista. Por mais mais que ele mate apenas pessoas inocentes, faz de seus crimes um meio para canalizar suas frustrações e suas ansiedades. É fato – Dexter Morgan é um criminoso insaciável. E daí? O ator conduz o personagem de uma maneira tão impressionante que faz com que o espectador torça por sua figura. Ninguém quer que Dexter se dê mal. Um feito de se tirar o chapéu. Só quem viu a série pode dizer.
Não é só o Dexter que só tornou uma pessoa “má” por causa dos problemas que sofreu através da vida. Temos a Barbara Covett (Judi Dench) de Notas Sobre Um Escândalo – uma mulher solitária que faz tudo o que pode para obter o afeto de sua amiga por quem é apaixonada. A solidão também transformou Annie Wilkes (Kathy Bates) de Louca Obsessão, que perde totalmente o controle e a noção da regularidade do aceitável ao conhecer seu grande ídolo literário.
O mundo do mal, portanto, sempre tem mais portas para serem abertas. É muito fácil extrair coisas fantásticas desses personagens – que são, de uma forma ou de outra, problemáticos. São mais ricos em seus detalhes subjetivos, pertencentes a uma classe excluída da sociedade. Afinal, poucos querem assistir histórias de seres humanos com imperfeições que levam a caminhos tão tortuosos. Mas a vida é assim mesmo, composta de estradas irregulares. Os vilões são a prova disso. Não são apenas meros entretimentos. Possuem um fundo dramático também.