Arquivo de Fevereiro, 2009

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come to bed, laura brown…

Fevereiro 25, 2009

cometobed

“Something’s happened. There’s been a change, some shift in values. When you no longer understand your people, maybe it is time to hand it over to the next generation.”

- Eu já não sou mais aquela criancinha que não percebe o que está acontecendo…

- Mas também não é tão maduro. Tu se acha tão inteligente, tão crítico, mas na verdade tu não entende nem metade do que tu acha que entende sobre a vida. Tu toma partido por coisas que tu nem tem conhecimento.

- Claro, eu não tenho os fatos. As pessoas simplesmente brigam, me colocam no meio da confusão, brigam comigo também e não me explicam nada.

- Eu não tenho que dar satisfaçõe nenhuma pra ti.

- Mas então também não tem o direito de me punir por algo que eu não fiz.

- Tu fez sim, tu escolheu um lado pra lutar sem ao menos saber o que aconteceu.

- Eu não escolhi lado nenhum, eu tirei minhas conclusões a partir das coisas que eu vi.

- Isso não é verdade, tu sempre fica no lado que te favorece.

- Isso não é verdade.

- Tu deixa as pessoas fazerem a tua cabeça.

- Se tu me conhecesse de verdade, ia saber que ninguém faz a minha cabeça. Ninguém.

- Tu nunca fai o mesmo, só faz desaforo, tem ódio no teu olhar, não tem um pingo de afeto por ninguém, muito menos por mim.

- Mas ninguém presta pra ti. Todo mundo é sempre errado, todo mundo é fracassado, todo mundo só faz desaforo pra ti.

- E é verdade.

- Que coisa né? Como o mundo é injusto. Isso é até uma conspiração do universo.

- Eu estou começando a achar que é.

- Então tá, eu não vou mais discutir.

- Eu não acabei ainda e não vai ser tu que vai dizer quando eu vou parar. Tu não consegue verbalizar as coisas que tu pensa e te fecha.

- Acho que quem não verbaliza as coisas aqui é tu. Simplesmente se fecha, não fala com ninguém e agora vem descarregando tudo de uma vez só.

- Tu não gosta de mim.

- Como é que tu sabe?

- Eu tenho certeza.

- Virou Meryl Streep em Dúvida agora? A tua certeza é a verdade absoluta?

- Não vem com essas filosofias de filmes, deixa de ser bobo.

- Então tá, eu não tenho mais o que falar…

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E a partir daquele momento, muitas coisas se perderam, porque esse trecho foi apenas uma parte de toda uma cena interminável. Não apenas isso, mas muitas outras coisas foram perdidas nesse verão em Wellfleet. Aliás, sempre se perdem coisas em Wellfleet. Mas também se ganham. Nem que seja para ficar apenas na memória.

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feelings at the end of the world.

Fevereiro 16, 2009

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I had just one summer…”

A princípio, eu dizia que a intimidade não era grande o suficiente para falar sobre isso. Depois eu não achava a hora certa, a ocasião certa, a palavra certa. Por fim, era tarde demais para falar sobre isso, junto com todos os outros segredos da juventude. Contanto, eu despertaria a falsa impressão de que tinha mantido silêncio porque não era certo, e eu tinha a consciência culpada. O fato de notarem que eu não me abria totalmente, não ajudava.

- Você.

- Sim?

- Você ficou muito tempo doente, é isso que te perturba? Você tem medo de não ficar mais bem de saúde?

- Não. Não estou mais doente. Tudo isso é por causa de outro motivo.

- Você não quer falar sobre isso, ou você quer mas não sabe como?

- Talvez eu possa falar sobre isso uma outra vez.

Mas nunca chegou a hora.

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just like you said.

Fevereiro 15, 2009

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“Don’t stop loving me. I can see it draining out of you. It’s me, remember? It was a stupid thing to do and it meant nothing. If you love me enough, you’ll forgive me.”

Foi lá no cinema do Iguatemi. Eu fiquei envergonhado. Era Julia Roberts falando sobre como Jude Law fez com que ela gozasse. Era Clive Owen tecendo uma tensão muito sexual com Natalie Portman numa boate. Era o sexo, o podre, o que rebaixa a maioria das pessoas para níveis inaceitáveis da baixaria. É o íntimo que deve ser guardado a sete chaves sendo exposto para machucar. O amor, de repente, pode se transformar em pura escatologia. E eu, com treze anos de idade estava completamente atordoado com aquilo. Eu era uma criança, numa sessão cheia de adultos, que não entendia absolutamente nada do que se passava naquele troca-troca de Closer – Perto Demais.

Eu entendi perfeitamente o filme tecnicamente falando. As expressões dos atores, as intenções do diretor e como ele foi desenvolvido nos seus setores secundários. Mas não entendi a essência e, naquela época, não me dei conta disso. Eu estava sem fazer nada na sexta quando o filme começou a passar na tv – eu estava na praia, claro, só isso pra me fazer assistir filme na tv, ainda mais na Globo. Pretendi assistir só o começo, mas acabei ficando bem mais do que pretendia, acompanhei tudo até o final. E dessa vez eu entendi.

Closer é aquele tipo de filme que só se entende depois de ter vivido bastante coisa. É impossível entender sem ter, ao menos, passado por algum diálogos daqueles. É como querer entender Woody Allen sem ter tido um relacionamento na vida. O filme de Mike Nichols, então, é para os vividos. É sobre dor, sobre amor, sobre aceitação da banalidade. É se contentar com o incontentável. É perdoar ofensas, é usar o sexo como forma de expressão e vingança. É ser adulto com atitudes infantis. É crescer e continuar sem saber o que fazer. Afinal, nada tem soluções fáceis. Muito menos relacionamentos.

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BAFTA is the coolest.

Fevereiro 14, 2009

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Estou pronta para perder o Oscar novamente.

Devia ter uma cláusula que proíbisse os atores indicados ao Oscar se manifestarem sobre a festa. Primeiro foi o Sean Penn excluindo todos os outros concorrentes e dizendo que o prêmio vai ir para ele ou Mickey Rourke. Agora Kate Winslet inventa de dizer que está pronta para perder o Oscar novamente. Uma coisa é Meryl Streep dizer que não aguenta mais perder o prêmio – afinal, Meryl é Meryl e ela tem o direito de falar essas coisas. Outra coisa é Kate Winslet, que não tem, falar isso. Tá meio na cara que, dessa vez, uma frase não vai custar o prêmio de alguém (ao contrário do Sean Penn, que depois daquela perdeu parte de sua credibilidade). É a vez da Kate, não adianta.

Confirmando a vitória de Kate no Oscar, o BAFTA deu o prêmio para a atriz. Fico praguejando aos quatro ventos que ela não merece esse prêmio. Não merece porque o papel dela é coadjuvante, e é esse o prêmio que ela deveria ganhar, sem pestanejar. Difícil ver o Oscar maximizando uma interpretação – normalmente eles minimizam, como aquele absurdo de colocar Jennifer Connelly como coadjuvante por Uma Mente Brilhante. O que acontece é que Kate merece muito mais que uma estatueta de coadjuvante. Ela é uma atriz com “a” maiúsculo e sem dúvida merece um título de “melhor atriz” na sua carreira. Deixando de lado classificações como protagonista ou coadjuvante, Kate está perfeita em O Leitor.

Mas o post não é sobre ela, é sobre o BAFTA. Mesmo que eu ame esses prêmios de cinema, normalmente fico entediado com eles. O Globo de Ouro é certamente um prêmio mais para os famosos do que para o cinema em si e tem o terrível defeito de misturar cinema, tv e prêmio honorário em uma festa que, em diversos momentos, perde a graça. No final, o prêmio de melhor filme já nem é mais tão interessante depois da longa espera. O Screen Actors Guild então nem se fala, a festa mais tediosa de todas. E eu deveria gostar, já que é um prêmio voltado apenas para os atores. O Oscar é o mais emocionante de todos, mas ultimamente anda sendo muito maria-vai-com-as-outras e perdendo completamente sua identidade – apesar de dizer que está de “cara nova”.

Quem se salva? O BAFTA, que esse ano apresentou uma festa perfeita. Rápida, dinâmica, divertida e, acima de tudo, justa. E antes de falar do evento em si, preciso comentar da trilha sonora usada. Mickey Rourke vencendo ao som de Spiralling do Keane, alguns filmes sendo relembrados com a Human do The Killers e Duffy e David Bowie se mostrando presentes em alguns momentos conferem uma alma extremamente cool ao BAFTA. O auditório, gigantesco, parece muito mais majestoso que o do Oscar. As celebridades parecem mais descontraídas. Não tem piadinhas que não dão certo. Não tem prêmios chatos que demoram uma eternidade. Discursos longos não têm vez. Enfim, tudo muito bem controlado e com uma qualidade realmente impressionante. Claro, tudo que é da Inglaterra impressiona mais.

Ainda que justa, a festa foi previsível. É tanta tensão em torno dos indicados, que na hora do anúncio perde a graça. Um exemplo? Todo mundo sabia que melhor ator estava entre Sean Penn e Mickey Rourke. Ganhou Rourke. Todo mundo sabia que melhor atriz estava entre Meryl Streep e Kate Winslet. Ganhou Winslet. Chato, previsível. Incoerente de minha parte, claro. Eles merecem os prêmios. Mas, ao menos para mim, parece que a todo momento uma certeza vai surgir. E, ultimamente, nunca mais surgiu. Nunca mais. A última surpresa – e também uma das mais chocante de toda a história – foi Crash batendo (merecidamente) O Segredo de Brokeback Mountain na categoria de melhor filme. E desde lá, os prêmios foram de uma previsibilidade sem fim. Será que o Oscar vai aprontar esse ano com Quem Quer Ser Um Milionário?

Anteriormente eu torcia contra Juno, Os Infiltrados (Scorsese goes down, please!) e O Segredo de Brokeback Mountain. Esse ano só tem um filme que desperta a minha antipatia. Mas não por completo como os outros filmes citados (que, na minha opinião, não mereciam vencer nenhum prêmio). Porque, ao meu ver, Milk – A Voz da Igualdade merece o Oscar de melhor ator. De resto, não tinha que concorrer a absolutamente nada. Longa absolutamente convencional que só sabe falar sobre direitos homossexuais e nem consegue criar história pra narrar direito. Concorre a melhor filme e Dúvida, que tem um texto extremamente bem escrito e argumentativo, foi deixado de fora. Eco da culpa por Brokeback Mountain. Culpa não sei de onde, já que o público enfiou na cabeça que o filme de Ang Lee tinha que ter sido o principal vencedor naquela edição do Oscar. Bullshit. Dessa vez, fora Milk! Com todas as forças.

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but I have my certainty!

Fevereiro 8, 2009

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“Doubt can be a bond as powerful and sustaining as certainty. When you are lost, you are not alone.”

Não é fácil digerir Dúvida. Quase não tem história, a ação do filme ocorre inteiramente nos diálogos e parece que estamos assistindo uma peça de teatro filmada. Mas eu sou fã de filmes que o poder dele se encontra nas palavras. Por isso mesmo, não pude resistir ao longa. A história todo mundo já sabe – uma freira chamada Aloysius acusa um padre de estar molestando um jovem numa  escola católica. O problema é que ele é o único aluno negro da instituição. Além disso, numa emocionante cena da atriz Viola Davis, descobrimos que ele apanha do pai (por razões que não ficam muito explícitas, mas possivelmente por ele apresentar indícios de homossexualismo) e que sofria nas mãos de garotos em outra escola. A irmã Aloysius, ao saber que o garoto bebeu o vinho do altar e que teve alguns momentos a sós com o padre, começa uma jornada para provar as suas certezas. A certeza dela é que o padre Flynn é culpado e que deu propositalmente o vinho para o garoto e o molestou. Certeza essa que não sabemos de onde vem, nem porque surgiu. Só sabemos que ela existe.

Quando Alysius confronta Flynn ele nega firmemente, acusa a irmã de louca e diz que não vai aceitar uma acusação absurda dessas. A irmã James, que a princípio apoiava Aloysius vai observando melhor a situação e começa a moldar melhor sua opinião. O problema é que, quanto mais o padre tenta provar o contrário, mais a situação se agrava. Aloysius chama a mãe do garoto, relata o acontecido e passa a confrontar o padre cada vez mais. O filme inteiro é basicamente isso. Aloysius diz que sim, Flynn diz que não e James não sabe bem o que faz. O espectador fica no meio da confusão, tentando procurar situações que evidenciem a verdade. Mas é difícil. O filme confunde, mesmo que eu tenha achado claramente que o roteiro quer tomar o partido de que o padre é culpado. Confunde mais ainda na cena final, onde somos surpreendidos com uma reação da irmã que passou o filme inteiro fazendo acusações.

Por mais que dê pra sair do filme defendendo determinado personagem, ninguém sai de lá com plena certeza. Você pode até dizer que o padre é culpado, mas existem teorias que contradizem isso. O mesmo se aplica para a inocência dele. Eu, particularmente, acredito que ele tenha molestado sim a criança. Por várias razões que serão discutidas agora e que têm spoilers. A primeira, obviamente, é o padre ter ido embora da escola. Ele podia ter ficado e lutado, mesmo que a fofoca tomasse proporções devastadoras. Acho que ele aceitou muito facilmente o fato de que ele não poderia lutar com a freira. Quem não deve não teme, e se fosse eu teria ficado lá até aquela velha desistir da confusão. Depois ele parecia muito irritadinho com as acusações dela, fingia que não ouvia, que não se importava. Mas, quando pressionado demais, levantava a voz, fazia sermões dando indiretas para a freira e convencia os outros de sua inocência às escondidas. Mas só o fato de ele ter saído da escola, pra mim, já assina o atestado de sua culpa.

Eu, sinceramente, não vejo tantos motivos para ele ser inocente. O que induz o espectador a acreditar que, possivelmente, ele seja inocência é a figura da irmã Aloysius. Ela é chata, antipática, faz acusações sem provas concretas e sempre dá um jeitinho de infernizar a vida de qualquer um. O grande problema é que o padre não reage bem diante dela. Para piorar mais ainda a sensação de dúvida que paira durante o filme inteiro, a história culmina em um final totalmente desconcertante, que vai fazer muita gente detestar o resultado. Mas, além disso, não é só pelo final em si, mas por causa do que acontece nele. Não esperávamos aquilo, em momento algum. Não daquela maneira. Dúvida, então, faz pensar. Pensar muito. Nem lembro a última vez que fiquei tão intrigado com um filme.

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it’s always about you.

Fevereiro 5, 2009

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“It doesn’t matter what I think. It doesn’t matter what I feel. I can’t live without you. The thought of leaving you kills me. Do you love me?”

Considero o cinema de Stephen Daldry bem complicado, com exceção de Billy Elliot. Diretor de apenas três filmes, tem uma carreira mais do que exemplar. Três filmes e três indicações ao Oscar de diretor. Não que Oscar seja necessariamente atestado de qualidade. A princípio poderíamos dizer que os filmes de Daldry são difícies justamente porque são adaptados de obras difíceis. Não é verdade. Com exceção do filme do bailarino que eu já citei, os outros dois filme dele são totalmente complexos e restritos. Longe do cinema desde As Horas (que dispensa comentários de tão perfeito), filmado em 2002, Daldry retorna com O Leitor, complexo estudo sobre o amor e sobre os sentimentos referentes a uma determinada pessoa. Tinha lido o livro de Bernhard Shlink, que deu origem ao filme, logo antes de ver o trabalho de Daldry. A história em forma de literatura não me afetou tanto quanto o filme – apesar de eu encontrar pensamentos, situações e indagações semelhantes ao do protagonista.

A questão principal do filme não é narrar os encontros eróticos e intelectuais de Michael Berg e Hanna Schmitz, e sim mostrar o efeito que um teve na vida do outro. Ele, um jovem estudando que nunca teve qualquer tipo de relacionamento. Ela, uma mulher misteriosa e trabalhadora que se envolve com ele. Não é atração nem admiração. É amor, mesmo que não seja explicitamente na essência da palavra. Daldry mostra a relação de Hanna e Michael de forma muito interessante, até culminar na grande revelação que muda tudo. Como amar alguém que é capaz de cometer atrocidades com outro seres humanos? O filme é lento, cheio de análises, com pouca coisa acontecendo. No entanto, aí é que está o grande poder de um filme: fazer com que a ausência de acontecimentos seja compensanda por um turbilhão de emoções que se forma emocionalmente dentro de cada personagens. A vida de Michael Berg nunca mais foi a mesma depois de Hanna Schmitz. Porém, é o espectador que escolhe porque razões ela transformou a vida dele. Por ser o primeiro amor? Por cometer atrocidades? Ou será que ela nunca notou o efeito que ela teve na vida dele? Contudo, Hanna Schmitz  também nunca mais foi a mesma depois desse relacionamento. Ninguém fica igual depois de um relacionamento. O importante é saber se você sabe o efeito que causa sob uma pessoa. Afinal, somos responsáveis por aquilo que cativamos (ou não).